Sobre

A Diocese de Guajará-Mirim é uma circunscrição eclesiástica da Igreja Católica no Brasil. Pertence à Província Eclesiástica de Porto Velho. Regional Noroeste da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil. A sé episcopal está na Catedral de Nossa Senhora do Seringueiro, na cidade de Guajará-Mirim, no Estado do Rondônia.

A Diocese foi criada pelo Papa Pio XI, por meio da bula Animarum cura, de 01 de março de 1929, desmembrada da Diocese de São Luís de Cáceres e da então Prelazia de Porto Velho. Foi confiada pela Santa Sé aos cuidados da Terceira Ordem Regular. Foi elevada a Diocese pelo Papa João Paulo II, por meio da Constituição Apostólica Guaiaramirensis, de 16 de outubro de 1979.

A Diocese de Guajará-Mirim tem uma extensão de 91.282 Km2. A população é de 167.438 habitantes.

Para poder atender melhor as comunidades, a Diocese é dividida em três Regiões Pastorais. Região Sede: com 4 Paróquias; Região Centro: com 5 Paróquias; Região Sul: com 4 Paróquias. Com um total de 420 Comunidades. 

O Povo da Diocese de Guajará-Mirim

A realidade da Diocese é formada por:

a) Indígenas

Os índios eram, em 1932, cerca de 30.000. Hoje são aproximadamente 5.000, vítimas do avanço dos seringalistas, seringueiros, garimpeiros, madeireiros e  outros. É necessário um ato penitencial para pedir perdão dos erros cometidos contra a vida e a cultura dos nossos irmãos indígenas. Se existem ainda centenas de índios em nossa Diocese, cujo número aumenta constantemente, nós o devemos à atuação de Dom Rey, Dom Roberto, Dom Geraldo, Dom Benedito e de muitos colaboradores.

A atuação da diocese e do CIMI visa fortalecer a autonomia dos povos indígenas, e dessa forma assegurar a sobrevivência física e cultural desses povos.

Na área da saúde, o Dr. Gil formou mais de 30 Agentes Indígenas de Saúde (AIS) hoje presentes nas 22 aldeias da região de Guajará-Mirim e realizou atendimento médico periódico nestas aldeias, trabalho hoje retomado pela Funasa (Fundação Nacional de Saúde), responsável pela saúde indígena. A Pastoral da Criança iniciou um trabalho de acompanhamento das crianças de 0 a 5 anos em parceria com os AIS e a Funasa.

Na área da educação, a Diocese apoia o trabalho de Dom Roberto, que elaborou um livro de mitos do povo Oro Wari e também material didático para os professores indígenas alfabetizarem na própria língua, contando, também, com missionárias do Projeto Igrejas-Irmãs (Dulce e Bernadete).

Em Rondônia existem 09 povos sem contato, dos quais 05 nesta Diocese.

b) Quilombolas

Os quilombolas, descendentes dos escravos, fugiram das senzalas de Mato Grosso ou da construção do Forte Príncipe da Beira (comboios de 1.000 escravos por vez eram enviados do Rio de Janeiro para esta construção). Eles se instalaram no Vale do Guaporé, onde viveram, em harmonia com os índios e com a natureza, da extração da seringa, da caça, da pesca, da agricultura, formando verdadeiros Quilombos como Vila Bela da SS. Trindade (MT) e outros povoados ao longo do rio.

Os quilombolas nativos estão mais concentrados nos Regionais de Guajará, Costa Marques e no Alto Guaporé, onde mantêm costumes e tradições de grande riqueza, como a famosa Festa do Divino, que teve sua comemoração centenária em 1994. Esta Festa, nascida em Ilha das Flores, por iniciativa de um grupo de católicos, é a mais antiga manifestação de religiosidade popular da Diocese. A cada ano, um lugar ao longo do Rio Guaporé é escolhido para ser a Sede dos festejos em comemoração ao Senhor Divino. Na época de Pentecostes acontece uma verdadeira romaria fluvial dos ribeirinhos e de toda Rondônia  buscando a proteção do “Consolador”, do Divino Espírito Santo.

Os descendentes dos escravos africanos chegaram por ocasião da construção do Forte Príncipe da Beira e das minas de ouro de Vila Bela da Santíssima Trindade (MT). Muitos deles fugiram constituindo o Quilombo do Piolho (ainda existe o Igarapé do Piolho, em Cabixi). Atacado pelos portugueses, jamais conseguiram acabar com os escravos fugitivos, que se instalaram no Vale do Guaporé. Quando mais tarde, o ouro acabou nas minas de Vila Bela, por causa de doenças endêmicas os portugueses abandonaram a região, e os quilombolas viveram em harmonia com os índios e com a natureza, da agricultura, da caça e da pesca, e posteriormente da extração e transporte de seringa em povoados ao longo do rio. De forma que o Vale do Guaporé se converteu numa região onde os antigos escravos já viviam em liberdade, muito antes da lei áurea em 1888. Quando isso aconteceu, alguns grupos de Cáceres procuraram também aqui onde trabalhar e viver em liberdade, ficando pelo Guaporé e chegando até Santa Fé, perto de Costa Marques. Alguns, como Balbino Maciel, se converteram em importantes seringalistas.

Atualmente o Vale do Guaporé concentra as únicas comunidades de Rondônia reconhecidas oficialmente como Remanescentes de Quilombo pela Fundação Palmares: Santo Antônio do Guaporé, Pedras Negras, Forte Príncipe da Beira, Santa Fé, Laranjeiras, Comunidade do Seu Jesus (no Rio São Miguel), e também Rolim de Moura do Guaporé. Está com o pedido apresentado a comunidade de Tarumá. Em quatro delas (Santo Antônio, Pedras Negras, Seu Jesus e Laranjeiras) o INCRA tem realizado o estudo oficial para demarcação do seu território, sem que ainda nenhuma comunidade tenha recebido titulação oficial dos territórios, garantidos pela Constituição.

A Romaria e Festa do Divino é a principal tradição religiosa do Vale do Guaporé, que foi iniciada pelos afrodescendentes e hoje é patrimônio de todos os moradores ribeirinhos. A responsabilidade do Divino é da Irmandade Geral do Senhor Divino Espírito Santo, junto a dez Irmandades locais (Pimenteiras, Piso Firme, Remanso, Cafetal, Rolim de Moura do Guaporé, Versalles, Porto Murtinho, Costa Marques, Nueva Brema e Surpresa). A Festa do Divino segue um rodízio, sendo cada ano escolhido um lugar ao longo do Rio Guaporé. A Festa é precedida da Romaria, que durante cinquenta dias, da festa de Páscoa à Pentecostes, de barco percorre todas as localidades do Rio Guaporé por mais de mil quilômetros, desde a Boca (Surpresa) até Pimenteiras, buscando a força e a luz no Senhor Divino Espírito Santo, Protetor e Consolador do Vale do Guaporé. (http://divinodoguapore.blogspot.com/)

c) Seringueiros

Como Porto Velho, a cidade de Guajará Mirim teve início com a construção da Estrada de Ferro Madeira-Mamoré, com objetivo de escoar a produção de borracha dos ricos seringais da região. Depois da crise da primeira década do século XX, a procura de borracha foi definhando, até que a demanda da Segunda Guerra Mundial trouxe uma nova leva de migrantes nordestinos nos seringais, conhecidos como os Soldados da Borracha. Atualmente somente no Rio Ouro Preto, Pakáas Novas e Cautário alguns seringueiros continuam a extrair a borracha. A maioria dos seringueiros trabalham extraindo castanha e também na agricultura, com importante produção de farinha de água, e estão organizados em diversas associações, sendo os gestores de diversas Reservas Extrativistas, no Rio Pakáas Novas, Rio Novo, Ouro Preto e Cautário.

Os soldados da borracha, nordestinos, viabilizaram e rentabilizaram os seringais, permanecendo em sua grande maioria na miséria e insegurança total. A chegada das estradas acabou com muitos seringais. O pequeno número de Seringueiros restantes, graças a sua organização, apoiada pela Igreja, conseguiu obter a propriedade de suas colocações e leva uma vida mais digna. Entretanto, esta situação não é tão boa como se desejaria, pois não conseguem sobreviver só com a extração da seringa nativa.

Atualmente, os seringueiros que continuam dentro das Reservas Extrativistas estão se organizando em vista de projetos alternativos de sustentabilidade.

Todo ano acontece uma “desobriga”, que consiste numa visita pastoral da Equipe Missionária com objetivo de anunciar a Palavra às Comunidades Ribeirinhas e dos Seringais.

d) Ribeirinhos

O atendimento aos ribeirinhos iniciou com as “desobrigas”, realizadas desde o ano 1932, ao longo dos Rios Guaporé, Mamoré e seus afluentes.

Os ribeirinhos são atendidos atualmente pela Pastoral Fluvial da Diocese, (http://pastoralfluvial.blogspot.com/) que atende as comunidades quilombolas, de seringueiros e algumas comunidades indígenas (Áreas Indígenas de Sagarana, do Guaporé, e do Rio Branco), assim como diversas comunidades bolivianas do Guaporé, que pertencem ao Vicariato do Beni: As Cruz (chiquitanos), Mateguá, Versalles (indígenas itonamas), Puerto Ustárez (joaquinianos), Vuelta Grande e Monte Azul (morés).

- A região sul atende Laranjeiras e Rolim de Moura do Guaporé, e ajuda nas comunidades bolivianas de Cafetal, Remanso e Bela Vista (indígenas chiquitanos e pau cerna).

- A equipe de Costa Marques, com o barco “Dom Roberto” cuida do atendimento do Guaporé e seus afluentes, até Laranjeiras.

- A equipe de Guajará Mirim, além de Surpresa, com o redentorista Pe. Francisco Viana à frente atende os Rios Pakáas Novas, Ouro Preto e Rio Novo.

Os ribeirinhos, também, foram beneficiados pelo mesmo projeto missionário da “Desobriga”, motivo pelo qual temos hoje uma grande massa de batizados que vive uma fé simples.

Este elemento nativo, que agora se tornou minoria diante do fluxo migratório acentuado do Sul e do Nordeste brasileiro, assimilou a maior manifestação de religiosidade popular de Rondônia, a Festa do Divino, celebrada no Vale do Guaporé desde 1884.

Desde 1932, todos os anos são feitas as “desobrigas” ao longo dos rios Mamoré e Guaporé e afluentes. A Equipe de Guajará-Mirim realiza as desobrigas no rio Mamoré e Afluentes; a equipe de Costa Marques as realiza ao longo do rio Guaporé, e afluentes até Pedras Negras; e a equipe do Sul da Diocese, atende o alto Guaporé até Rolim de Moura do Guaporé.

e) Imigrantes:

Devido à extensão de fronteira com a Bolívia (mais de 1.000 Km), há uma forte presença dos bolivianos em nossa Diocese.

Segundo dados da Polícia Federal, no ano 2.000, os bolivianos documentados em Guajará-Mirim eram 188. Os indocumentados mais de 500 famílias, com média de 5 filhos cada uma.

Somente no Município de Costa Marques tem um total de 144 famílias indocumentadas (dados oficiais). Mas na clandestinidade existem muitos mais.

f) Migrantes

A migração promovida pelo Governo, que visava o esvaziamento dos conflitos sociais no sul e no centro do país, fez com que milhares de famílias migrassem para cá, ocupando uma região despreparada e que não correspondia à imagem oficial, pois não havia infraestrutura (escolas, estradas, saúde, mercado para comercialização dos produtos agrícolas). A má distribuição da terra dificultava ainda mais a organização.

A partir de 1970 a migração em nossa diocese começa na região de Colorado do Oeste e segue em direção à Costa Marques e Nova Mamoré. Com o passar dos anos, surge um novo  fenômeno: a migração continua dentro do próprio Estado. Há também uma terceira migração, a dos que retornam ao seu Estado de origem. Com isto, observamos com tristeza o fechamento de algumas comunidades e o aumento dos latifúndios. Enfim, como no resto do país e em diversas regiões do mundo, existe a migração dos que abandonam o campo para morar na cidade.

Os que permanecem continuam lutando porque ainda acreditam e têm esperanças. Através da organização, conseguiram algumas conquistas: postos de saúde, estradas, escolas, roças comunitárias, máquinas de arroz, serrarias, trilhadeiras, como também aprendizado das culturas alternativas: recuperação de bananais, incentivo ao gado leiteiro e de corte, cultivo do café, da soja e palmito.

O avanço da monocultura e a prática dos garimpos é assustador, enquanto isso, a agricultura familiar não recebe incentivo, dificultando dessa forma a permanência no campo.