I VISITA PASTORAL – DOM BENEDITO ALDEIAS DO RIO PACAÁS NOVOS – 23 A 26/02/2019

Uma viagem deslumbrante!

Assim defino este tempo vivenciado ao lado da equipe do CIMI – Conselho Indigenista Missionário formado pela Vera Lúcia e Cíntia Regina.

Esta foi minha primeira visita as aldeias do Rio Pacaás e o Rio Negro Ocaia! Nosso objetivo era visitar os parentes, ouvir suas inquietações, clamores e conquistas e partilhar sobre a real questão indígena, manifestando o nosso apoio em favor deles, levando informações, mobilizando, sensibilizando para as questões sociais e o conhecimento das questões apontadas na revista Porantim que distribuímos para cada comunidade indígena. 

Graças à atenção, conhecimento geográfico e o bom serviço prestado pelo Srº. Abel, motorista e proprietário da voadeira motor 40, tudo transcorreu com normalidade. Ao longo da viagem, é surpreendente o acesso aos furos – vias que cortam a mata inundada - com objetivo de evitar as curvas do rio encurtando o trajeto.

A primeira experiência deslumbrante foi a saída do Porto de Guajará-Mirim, cruzando com o encontro das águas dos Rios Mamoré e Pacaás, que por muita extensão são totalmente separadas.

Saímos de Guajará às 07h45min e aportamos na grande Aldeia do Rio Ouro Negro Ocaia Central às 11h50min.

Ao longo deste trajeto: dois pontos turísticos, famílias ribeirinhas, fazendas, sitiantes, sendo que predomina as grandes aldeias como: Santo André, Rio Negro Ocaia Central e Tanajura, e as aldeias pequenas: Cajueiro, Capoeirinha, Santo Antônio, Graças a Deus, Bom Futuro, Ocaia III, Pantirop, Komi Wan, Palhal, Piranha, Três Bocas.  As aldeias recém-criadas fazem parte da itinerância indígena assim como novos laços étnicos, divisões internas e a busca de um maior distanciamento para viver na tranquilidade e paz.

Assim, que chegamos à Aldeia Rio Negro Ocaia fomos acolhidos pelo Cacique Raimundo e o Prof. Erivaldo que alegremente falava do seu barco que é a casa da sua família. Além de  prestar serviço como professor junto dos parentes, disponibiliza  um pequeno atendimento com produtos básicos, é um pequeno comercio fluvial. 

Nestas aldeias é predominante a presença da Igreja Evangélica Missão Novas Tribos, as aldeias maiores conta com a presença de um pastor. Percebi que o comportamento evangélico indígena nestas aldeias é sóbrio e sereno, diferente do pentecostalismo que muitas vezes é radical. Por conta deste perfil, as festas típicas das etnias presentes desapareceram, assim como os pajés; não percebi o uso da Chicha, quando acontece é usada a Chicha doce.

Quanto à saúde, a presença do AS (Agente de Saúde) é sempre um ponto de referencia para todos; o trabalho do enfermeiro que geralmente que é deslocado da cidade para as aldeias, tem como base as aldeias maiores, onde geralmente prestam serviço, com direito as folgas isso resulta no retorno para a cidade, deixando assim a comunidade carente do devido atendimento. As farmácias dispõem da medicação básica e a reclamação contundente é a falta de uma maior atenção à saúde indígena, por conta dos improvisos nas instalações de acolhimento dos parentes que necessitam de um acompanhamento de saúde na cidade; exemplo disso é o funcionamento da CASAI – Casa de Saúde Indígena - que há uns três anos tem funcionado nos hotéis da cidade de Guajará Mirim, enquanto isso, as obras iniciadas no próprio prédio da CASAI ainda não foram concluídas. Os parentes manifestaram muito contentamento pela atenção e presença dos médicos cubanos através do programa de governo “Mais Médicos”. Agora, após a retirada dos mesmos, a lamentação é continua.

A maior preocupação do momento é a ideia de municipalizar a saúde indígena, a invasão das terras indígenas e a cooptação de lideranças. Para citar um exemplo - o caso das terras indígenas Uru-Eu-Wau-Wau e Karipuna - no dia 29 de janeiro, com a participação de lideranças indígenas, do governo de Rondônia e representantes de diversos órgãos como Policia Federal, Ministério Publico Federal, discutiam sobre estratégias e operações conjuntas. “Os indígenas reivindicaram ação imediata do Estado brasileiro e relataram dificuldade de circular pela área e de receber atendimento médico, devido as ameaças que estariam recebendo” (Cf. Informativo CPT Jan/Fev 2019).      

Quanto à educação escolar indígena, algumas aldeias reclamam da falta de professores, por conta disso o deslocamento para outras aldeias é sempre mais dispendioso. O famoso projeto de mediação tecnológica é um projeto audacioso porem a implementação do mesmo é desafiador. Essa iniciativa é realizada na aldeia Tanajura (uma sala), na aldeia Rio Negro Ocaia, a sala foi reformada, enquanto os equipamentos estão se estragando nos cantos e corredores das instalações existentes.

Nosso próximo compromisso é visitar os outros parentes chegando até à aldeia São Luís.

+Dom Benedito Araújo

Bispo de Guajará-Mirim