Guerreira Indígena do Povo Djeoromitxi

Zuila internada


"Neru Tyrei ika"

        ZUILA JABUTI, 53 anos, do povo Djeoromitxi, moradora da aldeia Ricardo Franco na terra indígena Guaporé, partiu para a casa do Pai durante a noite de 22 a 23 de maio. A mesma estava internada no Hospital de Base em Porto Velho. O corpo chegou a Guajará-Mirim pela tarde do dia 23 e, na mesma hora, uma voadeira da SESAI seguiu para Ricardo Franco com seus familiares.

Nossos sentimentos a seu esposo José Arowá (povo Salamai), a seus 05 filhos, a seus netos, a seu irmão Irineu (Coroca) e seus sobrinhos, a seus primos, ao povo Djeoromitxi, a todos os moradores da Terra Indígena Guaporé e demais amigos.

Queremos deixar nosso testemunho de gratidão pela vida e a amizade da Zuila.

Queremos manifestar também nossa simpatia e admiração para com seus filhos e filhas, e para José, seu esposo que, durante mais de um ano e meio, acompanharam a Zuila durante suas longas internações em CASAI e Hospitais, com muito zelo e carinho.

Queremos ainda partilhar a nossa indignação diante do atraso injustificável do diagnóstico da doença da Zuila, uma irresponsabilidade que lhe custou a vida e muito sofrimento. A indignação é maior ainda quando sabemos que a doença tem cura no seu início.

As primeiras internações na CASAI e as dores que Zuila referia em 2014 já eram relacionadas à doença. As dores se intensificaram e, aos meados de 2016, Zuila não pôde mais andar ou com muita dificuldade. Após o resultado da biópsia, o tratamento será iniciado em Porto Velho em dezembro de 2016.

Zuila sempre foi uma mulher forte e corajosa. Nosso bispo diocesano, Dom Benedito Araújo, tinha um carinho e uma estima muito especial para com ela. Quando ele parava em Ricardo Franco, ela preparava as refeições da equipe missionária com muito carinho. Inclusive, em agosto de 2016, mesmo deitada e com dores, ainda fez questão de coordenar a acolhida do mesmo.

No período de setembro a novembro de 2016, Zuila ficou internada durante várias semanas no Hospital Bom Pastor (em Guajará-Mirim) onde pudemos a visitar com frequência. O tumor tinha avançado para a raiz da coxa o que provocava dores constantes. Zuila gostava de contar histórias de seu povo (Djeoromitxi) e ao contar, as dores eram amenizadas por um instante. Demostrava orgulho em ser filha e sobrinha de Alonso e Paturi, grandes pajés Djeoromitxi, hoje falecidos. A ansiedade palpável em transmitir seu saber era um possível pressentimento, consciente ou não, da gravidade de sua doença.

A partir de dezembro de 2016, Zuila ficou internada na CASAI de Porto Velho para realizar as sessões de químio e radioterapia em ambulatório. Dizia que o que mais a maltratava era o retorno à CASAI, verdadeira “via sacra”, pois a vã recolhia pacientes em postos de saúde e hospitais. Não lembramos ter ouvido outra queixa da Zuila, mesmo nos últimos meses quando a febre tornou-se uma companheira diária.

Graças ao celular pudemos nos comunicar semanalmente. A partir do final de 2016, passamos a chamar Zuila, “Neru Tyrei ika”, seu nome próprio Djeoromitxi. Ela mesma atendia as ligações. Nós perguntávamos: Amedjy? (tudo bem?) – Amedjy! Respondia.

Nossas raras idas a Porto Velho eram motivadas, principalmente, pela visita à Zuila. Na penúltima visita, em fevereiro passado, fomos à CASAI junto com Fabiano (filho da Petronila) e Celso Oro Eo, estudante em odontologia da aldeia Sagarana. Sandra estava acompanhando a mãe. Logo que entramos, Zuila nos disse: “É hoje que eu nasci!” Ninguém, nem a própria filha, sabia que era o aniversário da Zuila. Momento de graça que nos deu a Providência. Chamamos a enfermagem e o paciente Bento Mura de Manicoré (idoso internado, há 02 anos, que faz hemodiálise), e cantamos o “Parabéns”. Entregamos chocolates, um livro para Zuila e cada um escolheu um artesanato de tucum (pulseira ou colar) que tínhamos trazido. Zuila se encantou com uma pulseira de coco de tucumã. E para nossa surpresa, nos presenteou com um “marico” (bolsa) colorido que tinha tecido com Linha Princesa (uma boa opção na falta da matéria-prima, tucum). Foi o último que Zuila pôde confeccionar. Até hoje, esse marico que carregamos em tira-cola não sai de nossa vista.

 A última visita foi realizada em maio no Hospital de Base, 14 dias antes de sua partida. Petronila estava junto. Topamos com José feito um sonâmbulo, saindo do hospital e de ida à CASAI. Os olhos fundos e o rosto desfeito, ele nos disse: Sandro (filho caçula) está com a Zuila. Percorremos o corredor da ala de cirurgia e encontramos a Zuila na última enfermaria. Apesar do cansaço, abriu um sorriso. A enfermaria com 04 leitos, pequena e abafada apesar do ar condicionado, sem abertura nenhuma, nos pareceu desumana. À noite, o acompanhante não tem cadeira de descanso, portanto deita no piso em cima do que ele bem tiver. Nesse ambiente, até quem tem saúde adoece! Inclusive, Sandro e o José não estavam bem. Enquanto estávamos conversando, um médico e uma enfermeira entraram sem a gente perceber e aguardaram uns instantes em silêncio atrás de nós; ao sairmos, a enfermeira ainda sorriu para nós. Quanta humanidade nessa atitude que resgatou um pouco a péssima impressão da estrutura física do hospital!

Zuila tinha muita confiança e fé. Fé em Deus, no seu povo, na sua família, na vida, na amizade. Rezava todos os dias uma oração, “oração na doença e na dor” que escrevemos ao verso de uma foto. A cada ligação, ela perguntava por Dom Benedito, a Vera, a Cyntia...E nos contava feliz quando recebia a visita de um missionário do CIMI.

Logo que soubemos de seu falecimento nós nos reunimos na capela da Diocese com Dom Benedito. O mesmo acendeu uma vela ao pé da imagem esculpida de Maria. Pela tarde, fomos no porto para nos despedir e nos solidarizar com os familiares presentes.

A saudade sua é imensa. O único consolo é saber que você descansou e crer que Deus lhe chamou: “Nehru Tyrei Ika, aru!” “Entra, Zuila!”. E que você entrou no paraíso onde reencontrou seus pais e tantos parentes.

Gilles de Catheu - Guajará-Mirim/RO

Zuila de camiseta azul.

Zuila na CASAI (Casa de Saúde Indígena)