Tema: A vida é feita de encontros
Lema: Braços abertos sem medo para acolher!
Iluminação Bíblica: “Não oprima o imigrante: vocês conhecem a vida do imigrante, porque vocês foram imigrantes no Egito” (Ex. 23,9).
 
Aprensentação
 
O Papa Francisco, ao lançar a campanha “Compartilhe a Viagem”, nos convoca para caminhar com os migrantes, propondo como a Igreja deve responder aos desafios atuais e urgentes quanto à acolhida de refugiados (as) e migrantes nos dias de hoje. Partindo dessa compreensão, abraçamos a reflexão que migração não é um fenômeno recente e, sim, parte da história da humanidade. Porém, as causas mais constantes desses movimentos, na atualidade, perpassam questões econômicas e/ou políticas, desastres naturais ou provocados, situações de guerra ou ainda motivados pela constante e generalizada violação de direitos humanos.
 
É fato que os períodos históricos as pessoas mudam, mas o movimento de um lugar para outro caracteriza que a migração continua sendo um fenômeno complexo e com motivações diversas, onde os sujeitos são forçados ou atraidos, inclusive em grandes contingentes a buscarem melhorias nas condições de vida, alcançando ciclos migratórios nacionais e/ou internacionais, nem sempre conseguindo êxito nesse intuito.
 
A Campanha “Compartilhe a Viagem” propõe incentivar as pessoas, homens, mulheres, crianças e jovens, de todos os credos e religiões, para irem ao encontro dos migrantes, colaborando na construção de uma cultura de Paz, a partir das histórias de vida e da diversidade cultural dos migrantes. Por isso, é importante enxergar os migrantes como oportunidade nesse projeto de reconstrução das sociedades. Vale observar que a referida Campanha veio em um momento histórico para a Igreja e a sociedade, onde o refugiado e os migrantes em geral, têm sofrido, tanto nas regiões de origem, como nas de destino, as diversas formas de exploração e discriminação existentes nos espaços em que o capital domina e exclui cada vez mais as pessoas e suas potencialidades. Lembremos que, nesse sentido, o Papa Francisco enfatizou que as nações do mundo têm o dever de acolher os migrantes de braços abertos, a todos e todas. “Irmãos, não tenham medo de partilhar a jornada. Não tenham medo de partilhar a esperança”.
 
Para a Igreja, é muito importante reforçar os direitos dos migrantes, refugiados e das diversas categorias migratórias e esse dever-desafio encontra sentido quando denunciamos, por exemplo, o trabalho escravo e o tráfico de pessoas, uma vez que, não podemos, em hipótese alguma, permitir tais violações. Sabemos-que os países que ratificam as Convenções internacionais e constroem uma legislação nacional para Migrantes e Refugiados assumem a responsabilidade de oferecer proteçâo e assistência apropriadas. No entanto, quando se instalam em outros países, nem sempre os migrantes são bem recebidos. Atualmente, inclusive, há um comportamento que estimula a sociedade a rejeitar as pessoas nestas condições, sem sequer perceberem que, na maioria das vezes, quase todos e todas fomos ou somos migrantes.
 
Em sintonia com o espírito da 33ª Semana do Migrante, como nos lembra Pe. Alfredo Gonçalves, em seu texto “A sede e a Água Viva”, reflitamos: “O segredo da vida cotidiana é que a água viva não jorra de grandes feitos,’de atos heróicos, de decisões bombásticas. A água da chuva, dos rios e dos oceanos é feita de pequenas gotas. O mesmo ocorre com a água viva que brota do Evangelho. Um olhar, um sorriso, uma palavra, um toque, uma visita, um “bom dia”, um ouvido atento, um coração aberto, a mão estendida num gesto de solidariedade – eis as gotas que formam o oceano”.
 
Neste sentido é que apresentamos a 33a Semana do Migrante, neste ano celebrada de 17 a 24 de junho de 2018,coordenada, pela primeira vez, dentro do conjunto de pastorais e organismos da CNBB e outras instituições que trabalham a causa migratória e que, unidas, colocam e proclamam seu tema: A VIDA É FEITA DE ENCONTROS e seu lema: BRAÇOS ABERTOS SEM MEDO PARA ACOLHER!
 
Dom José Luiz F. Salles – Presidente dó SPM e
Bispo da Diocese de Pesqueira-PE
Dom João José Costa – Presidente da Caritas Brasileira e
Arcebispo da Arquidiocese de Aracaju- SE
Ver fotos da Missa de Abertura da 33a Semana dos Migrantes na Comunidade São Pedro e São Paulo.

“Acolher, proteger, promover e integrar os migrantes e os refugiados”

 Queridos irmãos e irmãs!

«O estrangeiro que reside convosco será tratado como um dos vossos compatriotas e amá-lo-ás como a ti mesmo, porque foste estrangeiro na terra do Egito. Eu sou o Senhor, vosso Deus» (Lv 19, 34).

Repetidas vezes, durante estes meus primeiros anos de pontificado, expressei especial preocupação pela triste situação de tantos migrantes e refugiados que fogem das guerras, das perseguições, dos desastres naturais e da pobreza. Trata-se, sem dúvida, dum «sinal dos tempos» que, desde a minha visita a Lampedusa em 8 de julho de 2013, tenho procurado ler sob a luz do Espírito Santo. Quando instituí o novo Dicasterio para o Serviço do Desenvolvimento Humano Integral, quis que houvesse nele uma Secção especial (colocada temporariamente sob a minha guia direta) que expressasse a solicitude da Igreja para com os migrantes, os desalojados, os refugiados e as vítimas de tráfico humano.

Cada forasteiro que bate à nossa porta é ocasião de encontro com Jesus Cristo, que Se identifica com o forasteiro acolhido ou rejeitado de cada época (cf. Mt 25, 35.43). O Senhor confia ao amor materno da Igreja cada ser humano forçado a deixar a sua pátria à procura dum futuro melhor.[1] Esta solicitude deve expressar-se, de maneira concreta, nas várias etapas da experiência migratória: desde a partida e a travessia até à chegada e ao regresso. Trata-se de uma grande responsabilidade que a Igreja deseja partilhar com todos os crentes e os homens e mulheres de boa vontade, que são chamados a dar resposta aos numerosos desafios colocados pelas migrações contemporâneas com generosidade, prontidão, sabedoria e clarividência, cada qual segundo as suas possibilidades.

A este respeito, desejo reafirmar que «a nossa resposta comum poderia articular-se à volta de quatro verbos fundados sobre os princípios da doutrina da Igreja: acolher, proteger, promover e integrar».[2]

Considerando o cenário atual, acolher significa, antes de tudo, oferecer a migrantes e refugiados possibilidades mais amplas de entrada segura e legal nos países de destino. Neste sentido, é desejável um empenho concreto para se incrementar e simplificar a concessão de vistos humanitários e para a reunificação familiar. Ao mesmo tempo, espero que um número maior de países adote programas de patrocínio privado e comunitário e abra corredores humanitários para os refugiados mais vulneráveis. Além disso seria conveniente prever vistos temporários especiais para as pessoas que, escapando dos conflitos, se refugiam nos países vizinhos. As expulsões coletivas e arbitrárias de migrantes e refugiados não constituem uma solução idónea, sobretudo quando são feitas para países que não podem garantir o respeito da dignidade e dos direitos fundamentais.[3] Volto a sublinhar a importância de oferecer a migrantes e refugiados um primeiro alojamento adequado e decente. «Os programas de acolhimento difundido, já iniciados em várias partes, parecem facilitar o encontro pessoal, permitir uma melhor qualidade dos serviços e oferecer maiores garantias de bom êxito».[4] O princípio da centralidade da pessoa humana, sustentado com firmeza pelo meu amado predecessor Bento XVI,[5]obriga-nos a antepor sempre a segurança pessoal à nacional. Em consequência, é necessário formar adequadamente o pessoal responsável pelos controlos de fronteira. A condição de migrantes, requerentes de asilo e refugiados exige que lhes sejam garantidos a segurança pessoal e o acesso aos serviços básicos. Em nome da dignidade fundamental de cada pessoa, esforcemo-nos por preferir outras alternativas à detenção para quantos entrem no território nacional sem estar autorizados. [6]

O segundo verbo, proteger, conjuga-se numa ampla série de ações em defesa dos direitos e da dignidade dos migrantes e refugiados, independentemente da sua situação migratória.[7] Esta proteção começa na própria pátria, consistindo na oferta de informações certas e verificadas antes da partida e na sua salvaguarda das práticas de recrutamento ilegal.[8] Tal proteção deveria continuar, na medida do possível, na terra de imigração, assegurando aos migrantes uma assistência consular adequada, o direito de manter sempre consigo os documentos de identidade pessoal, um acesso equitativo à justiça, a possibilidade de abrir contas bancárias pessoais e a garantia duma subsistência vital mínima. Se as capacidades e competências dos migrantes, requerentes de asilo e refugiados forem devidamente reconhecidas e valorizadas, constituem verdadeiramente uma mais-valia para as comunidades que os recebem.[9] Por isso, espero que, no respeito da sua dignidade, lhes seja concedida a liberdade de movimento no país de acolhimento, a possibilidade de trabalhar e o acesso aos meios de telecomunicação. Para as pessoas que decidam regressar ao seu país, sublinho a conveniência de desenvolver programas de reintegração laboral e social. A Convenção Internacional sobre os Direitos da Criança oferece uma base jurídica universal para a proteção dos menores migrantes. É necessário evitar-lhes qualquer forma de detenção por motivo da sua situação migratória, ao mesmo tempo que lhes deve ser assegurado o acesso regular à instrução primária e secundária. Da mesma forma, é preciso garantir-lhes a permanência regular ao chegarem à maioridade e a possibilidade de continuarem os seus estudos. Para os menores não acompanhados ou separados da sua família, é importante prever programas de custódia temporária ou acolhimento.[10] No respeito pelo direito universal a uma nacionalidade, esta deve ser reconhecida e devidamente certificada a todos os meninos e meninas no momento do seu nascimento. A situação de apátrida, em que às vezes acabam por se encontrar migrantes e refugiados, pode ser facilmente evitada através duma «legislação sobre a cidadania que esteja em conformidade com os princípios fundamentais do direito internacional».[11] A situação migratória não deveria limitar o acesso aos sistemas de assistência sanitária nacional e de previdência social, nem à transferência das respetivas contribuições em caso de repatriamento.

Promover significa, essencialmente, empenhar-se por que todos os migrantes e refugiados, bem como as comunidades que os acolhem, tenham condições para se realizar como pessoas em todas as dimensões que compõem a humanidade querida pelo Criador.[12] Dentre tais dimensões, seja reconhecido o justo valor à dimensão religiosa, garantindo a todos os estrangeiros presentes no território a liberdade de profissão e prática da religião. Muitos migrantes e refugiados possuem competências que devem ser devidamente certificadas e avaliadas. Visto «o trabalho humano, pela sua natureza, estar destinado a unir os povos»,[13] encorajo a que se faça tudo o possível para se promover a integração socio-laboral dos migrantes e refugiados, garantindo a todos – incluindo os requerentes de asilo – a possibilidade de trabalhar, percursos de formação linguística e de cidadania ativa e uma informação adequada nas suas línguas originais. No caso de menores migrantes, o seu envolvimento em atividades laborais precisa de ser regulamentado de modo a que se evitem abusos e ameaças ao seu crescimento normal. Em 2006, Bento XVI sublinhava como a família, no contexto migratório, é «lugar e recurso da cultura da vida e fator de integração de valores».[14] A sua integridade deve ser sempre promovida, favorecendo a reunificação familiar – incluindo avós, irmãos e netos – sem nunca o fazer depender de requisitos económicos. No caso de migrantes, requerentes de asilo e refugiados portadores de deficiência, deve ser assegurada maior atenção e apoio. Embora considerando dignos de louvor os esforços feitos até agora por muitos países em termos de cooperação internacional e assistência humanitária, espero que, na distribuição das respetivas ajudas, se considerem as necessidades (como, por exemplo, de assistência médica e social e de educação) dos países em vias de desenvolvimento que acolhem fluxos enormes de refugiados e migrantes e de igual modo se incluam, entre os beneficiários, as comunidades locais em situação de privação material e vulnerabilidade.[15]

O último verbo, integrar, situa-se no plano das oportunidades de enriquecimento intercultural geradas pela presença de migrantes e refugiados. A integração não é «uma assimilação, que leva a suprimir ou a esquecer a própria identidade cultural. O contato com o outro leva sobretudo a descobrir o seu “segredo”, a abrir-se para ele, a fim de acolher os seus aspetos válidos e contribuir assim para um maior conhecimento de cada um. Trata-se de um processo prolongado que tem em vista formar sociedades e culturas, tornando-as cada vez mais um reflexo das dádivas multiformes de Deus aos homens».[16] Este processo pode ser acelerado pela oferta de cidadania, independentemente de requisitos económicos e linguísticos, e por percursos de regularização extraordinária para migrantes que possuam uma longa permanência no país. Insisto mais uma vez na necessidade de favorecer em todos os sentidos a cultura do encontro, multiplicando as oportunidades de intercâmbio cultural, documentando e difundindo as «boas práticas» de integração e desenvolvendo programas tendentes a preparar as comunidades locais para os processos de integração. Tenho a peito sublinhar o caso especial dos estrangeiros forçados a deixar o país de imigração por causa de crises humanitárias. Estas pessoas necessitam que lhes seja assegurada uma assistência adequada para o repatriamento e programas de reintegração laboral na sua pátria.

De acordo com a sua tradição pastoral, a Igreja está disponível para se comprometer, em primeira pessoa, na realização de todas as iniciativas propostas acima, mas, para se obter os resultados esperados, é indispensável a contribuição da comunidade política e da sociedade civil, cada qual segundo as próprias responsabilidades.

Durante a Cimeira das Nações Unidas, realizada em Nova Iorque em 19 de setembro de 2016, os líderes mundiais expressaram claramente a vontade de se empenhar a favor dos migrantes e refugiados para salvar as suas vidas e proteger os seus direitos, compartilhando tal responsabilidade a nível global. Com este objetivo, os Estados comprometeram-se a redigir e aprovar até ao final de 2018 dois acordos globais (Global Compacts), um dedicado aos refugiados e outro referente aos migrantes.

Queridos irmãos e irmãs, à luz destes processos já iniciados, os próximos meses constituem uma oportunidade privilegiada para apresentar e apoiar as ações concretas nas quais quis conjugar os quatro verbos. Por isso, convido-vos a aproveitar as várias ocasiões possíveis para partilhar esta mensagem com todos os atores políticos e sociais envolvidos – ou interessados em participar – no processo que levará à aprovação dos dois acordos globais.

Neste dia 15 de agosto, celebramos a solenidade da Assunção de Maria Santíssima ao Céu. A Mãe de Deus experimentou pessoalmente a dureza do exílio (cf. Mt 2, 13-15), acompanhou amorosamente o caminho do Filho até ao Calvário e agora partilha eternamente da sua glória. À sua materna intercessão confiamos as esperanças de todos os migrantes e refugiados do mundo e as aspirações das comunidades que os acolhem, para que todos, no cumprimento do supremo mandamento divino, aprendamos a amar o outro, o estrangeiro, como a nós mesmos.

Zuila internada


“Neru Tyrei ika”

        ZUILA JABUTI, 53 anos, do povo Djeoromitxi, moradora da aldeia Ricardo Franco na terra indígena Guaporé, partiu para a casa do Pai durante a noite de 22 a 23 de maio. A mesma estava internada no Hospital de Base em Porto Velho. O corpo chegou a Guajará-Mirim pela tarde do dia 23 e, na mesma hora, uma voadeira da SESAI seguiu para Ricardo Franco com seus familiares.

Nossos sentimentos a seu esposo José Arowá (povo Salamai), a seus 05 filhos, a seus netos, a seu irmão Irineu (Coroca) e seus sobrinhos, a seus primos, ao povo Djeoromitxi, a todos os moradores da Terra Indígena Guaporé e demais amigos.

Queremos deixar nosso testemunho de gratidão pela vida e a amizade da Zuila.

Queremos manifestar também nossa simpatia e admiração para com seus filhos e filhas, e para José, seu esposo que, durante mais de um ano e meio, acompanharam a Zuila durante suas longas internações em CASAI e Hospitais, com muito zelo e carinho.

Queremos ainda partilhar a nossa indignação diante do atraso injustificável do diagnóstico da doença da Zuila, uma irresponsabilidade que lhe custou a vida e muito sofrimento. A indignação é maior ainda quando sabemos que a doença tem cura no seu início.

As primeiras internações na CASAI e as dores que Zuila referia em 2014 já eram relacionadas à doença. As dores se intensificaram e, aos meados de 2016, Zuila não pôde mais andar ou com muita dificuldade. Após o resultado da biópsia, o tratamento será iniciado em Porto Velho em dezembro de 2016.

Zuila sempre foi uma mulher forte e corajosa. Nosso bispo diocesano, Dom Benedito Araújo, tinha um carinho e uma estima muito especial para com ela. Quando ele parava em Ricardo Franco, ela preparava as refeições da equipe missionária com muito carinho. Inclusive, em agosto de 2016, mesmo deitada e com dores, ainda fez questão de coordenar a acolhida do mesmo.

No período de setembro a novembro de 2016, Zuila ficou internada durante várias semanas no Hospital Bom Pastor (em Guajará-Mirim) onde pudemos a visitar com frequência. O tumor tinha avançado para a raiz da coxa o que provocava dores constantes. Zuila gostava de contar histórias de seu povo (Djeoromitxi) e ao contar, as dores eram amenizadas por um instante. Demostrava orgulho em ser filha e sobrinha de Alonso e Paturi, grandes pajés Djeoromitxi, hoje falecidos. A ansiedade palpável em transmitir seu saber era um possível pressentimento, consciente ou não, da gravidade de sua doença.

A partir de dezembro de 2016, Zuila ficou internada na CASAI de Porto Velho para realizar as sessões de químio e radioterapia em ambulatório. Dizia que o que mais a maltratava era o retorno à CASAI, verdadeira “via sacra”, pois a vã recolhia pacientes em postos de saúde e hospitais. Não lembramos ter ouvido outra queixa da Zuila, mesmo nos últimos meses quando a febre tornou-se uma companheira diária.

Graças ao celular pudemos nos comunicar semanalmente. A partir do final de 2016, passamos a chamar Zuila, “Neru Tyrei ika”, seu nome próprio Djeoromitxi. Ela mesma atendia as ligações. Nós perguntávamos: Amedjy? (tudo bem?) – Amedjy! Respondia.

Nossas raras idas a Porto Velho eram motivadas, principalmente, pela visita à Zuila. Na penúltima visita, em fevereiro passado, fomos à CASAI junto com Fabiano (filho da Petronila) e Celso Oro Eo, estudante em odontologia da aldeia Sagarana. Sandra estava acompanhando a mãe. Logo que entramos, Zuila nos disse: “É hoje que eu nasci!” Ninguém, nem a própria filha, sabia que era o aniversário da Zuila. Momento de graça que nos deu a Providência. Chamamos a enfermagem e o paciente Bento Mura de Manicoré (idoso internado, há 02 anos, que faz hemodiálise), e cantamos o “Parabéns”. Entregamos chocolates, um livro para Zuila e cada um escolheu um artesanato de tucum (pulseira ou colar) que tínhamos trazido. Zuila se encantou com uma pulseira de coco de tucumã. E para nossa surpresa, nos presenteou com um “marico” (bolsa) colorido que tinha tecido com Linha Princesa (uma boa opção na falta da matéria-prima, tucum). Foi o último que Zuila pôde confeccionar. Até hoje, esse marico que carregamos em tira-cola não sai de nossa vista.

 A última visita foi realizada em maio no Hospital de Base, 14 dias antes de sua partida. Petronila estava junto. Topamos com José feito um sonâmbulo, saindo do hospital e de ida à CASAI. Os olhos fundos e o rosto desfeito, ele nos disse: Sandro (filho caçula) está com a Zuila. Percorremos o corredor da ala de cirurgia e encontramos a Zuila na última enfermaria. Apesar do cansaço, abriu um sorriso. A enfermaria com 04 leitos, pequena e abafada apesar do ar condicionado, sem abertura nenhuma, nos pareceu desumana. À noite, o acompanhante não tem cadeira de descanso, portanto deita no piso em cima do que ele bem tiver. Nesse ambiente, até quem tem saúde adoece! Inclusive, Sandro e o José não estavam bem. Enquanto estávamos conversando, um médico e uma enfermeira entraram sem a gente perceber e aguardaram uns instantes em silêncio atrás de nós; ao sairmos, a enfermeira ainda sorriu para nós. Quanta humanidade nessa atitude que resgatou um pouco a péssima impressão da estrutura física do hospital!

Zuila tinha muita confiança e fé. Fé em Deus, no seu povo, na sua família, na vida, na amizade. Rezava todos os dias uma oração, “oração na doença e na dor” que escrevemos ao verso de uma foto. A cada ligação, ela perguntava por Dom Benedito, a Vera, a Cyntia…E nos contava feliz quando recebia a visita de um missionário do CIMI.

Logo que soubemos de seu falecimento nós nos reunimos na capela da Diocese com Dom Benedito. O mesmo acendeu uma vela ao pé da imagem esculpida de Maria. Pela tarde, fomos no porto para nos despedir e nos solidarizar com os familiares presentes.

A saudade sua é imensa. O único consolo é saber que você descansou e crer que Deus lhe chamou: “Nehru Tyrei Ika, aru!” “Entra, Zuila!”. E que você entrou no paraíso onde reencontrou seus pais e tantos parentes.

Gilles de Catheu – Guajará-Mirim/RO

Zuila de camiseta azul.

Zuila na CASAI (Casa de Saúde Indígena)

Carta à Sociedade Brasileira

Brasília, 24 de maio de 2018

ETH – Nº. 0270/18

“O encontro e a recepção do outro se entrelaçam com o Encontro e a recepção de Deus:

acolher o outro é acolher Deus em pessoa ”. Papa Francisco

  

Nós, integrantes da Comissão Episcopal Pastoral Especial para o Enfrentamento ao Tráfico Humano (CEPEETH) da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) reunidos em Brasília, nos dias 23 e 24 de maio de 2018, analisamos com muita preocupação a situação que envolve a intensificação do fluxo migratório dos venezuelanos que estão chegando através do Estado de Roraima. Segundo os dados do ACNUR e da Polícia Federal do Brasil estima-se que mais de 52 mil migrantes venezuelanos chegaram ao Brasil, a maioria destes permanecem em Boa Vista. Diariamente, em média, chegam 400 venezuelanos passando pela fronteira brasileira. A perspectiva é que o fluxo se intensificará e se estenderá no tempo.

A Igreja do Brasil está participando dos esforços da Resposta Humanitária, em Roraima, através de ações e campanhas, com a participação de várias Congregações Religiosas, organismos e pastorais, sob a coordenação de Dom Mário da Silva, bispo de Roraima.

Não temos deixado essa responsabilidade apenas para as autoridades e organizações de Roraima. Cientes da situação de vulnerabilidade e da falta de perspectiva de vida na qual se encontra a grande maioria destes migrantes e refugiados que estão chegando ao Brasil, desejamos responder a essa urgência, com uma ação profética e solidária, enquanto Igreja acolhedora.

Chamamos a atenção que muitos destes migrantes e refugiados são potenciais vítimas das múltiplas explorações, dentre elas, o tráfico humano nas suas diversas modalidades. Por isso, é importante responder com um olhar atento e ações concretas contra estas violações, por exemplo, recebendo e/ou acompanhando alguns desses irmãos que clamam por trabalho, moradia, alimentação e saúde.

Na certeza de que o bem que fazemos a um desses irmãos e irmãs é ao próprio Cristo que estamos fazendo, agradecemos fraternalmente.

Que Nossa Senhora interceda junto a Deus por todos/as a fim de que nos empenhemos decididamente nessa missão de “acolher, proteger, promover e integrar” nossos irmãos e irmãs imigrantes e refugiados em nossa pátria.

 

Dom Enemésio Lazzaris
Bispo de Balsas/MA e Presidente da Comissão

          Nesta quarta-feira (30/05) em resposta a Coleta Diocesana que a Diocese de Guajará-Mirim articulou, Dom Mário Antônio Bispo da Diocese de Roraima enviou ao nosso Bispo Dom Benedito Araújo uma carta em agradecimento pelo gesto de solidariedade.

Leia na íntegra a carta enviada por Dom Mário Antônio a Dom Benedito Araújo:

 

Excelência Reverendíssima

Dom Benedito Araújo

Bispo de Guajará-Mirim/RO

Não Temais! “Ressuscitei e estou convosco para sempre!” (Lucas 24,36)

Com os mais sinceros cumprimentos, expressamos nossa gratidão e apoio, agradecidos pelo gesto concreto de solidariedade manifestado pelos irmãos da Diocese de Guajará-Mirim, através de Vossa Reverendíssima, com a doação feita dia 25 de maio de 2018, no valor de R$ 18.442,00 (dezoito mil e quatrocentos e quarenta e dois reais), não medindo esforços em colaborar no acolhimento à integração social e interiorização dos migrantes, em situação de vulnerabilidade, no Estado de Roraima, região jurisdicionada por nossa Diocese, e, assim, ajudando a amenizar a dramática situação em que ainda se encontram.

Deus nos abençoe a todos, perenemente.

 

Fraternalmente!

Dom Mário Antônio da Silva

Bispo da Diocese de Roraima

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